25.6.07

A Roda

Lasciame stare. Pois é aqui que eu quero ficar.

Dos meus sentimentos, o motor suga a energia que faz a roda girar. O fluxo gélido de água constante que movimenta o moinho, abre os ciclos e fecha a ciranda. É aqui que eu quero ficar. Me deixe cochilar nesse balanço, molhar meus pés na água fria. Quero estar no constante, dentro do instante, vendo o entediante passar longe de mim. Entre a diante. Me deixe ficar no movimento, na adrenalina do escuro, na loucura do desconhecido. Deixe a roda girar, deixe o vento bater, me deixe ser. Só por esse instante.

É uma questão de estações. Uma vem carregar as ondas que a outra deixou. Girando o turbilhão, ao sabor dos sabores, boiando no acaso. E é aqui que eu quero ficar.

21.6.07

Mameluco do km 158*

Lobo cor de fumo, em seu peito
quebram-se as gotas de sal
Em suas garras afiadas segura Iansã
vento que guia e desvia a nau

Marujo, capitão, jangadeiro
solto na maré do imprevisto
Senhor, escravo, herdeiro
da paixão pelo ainda não visto

Nós dos dedos sobre a roda de couro
À sua esquerda, a bomba do impulso
Convés benzido contra o negro agouro
À sua direita, o leste do pulso

Bordo que cambaleia o barco
engole as bordas da escuridão
E desenha um interminável arco
sobre o infinito da imensidão

No Atlântico, Índico ou no Negro,
do Pacifico ao Báltico ao Morto
Sorve a água e o sal da Terra
e volta pra nós, que somos teu porto

*(para meu pai)

Àquele amigo...

As notas soltas de uma melodia calada, na eterna busca do som que ecoa dentro e fora do quarto. Hoje, meu amigo, suas palavras querem escorrer até outros ouvidos, mas é melhor calar-se. Cale-se. E espera à escuta do silêncio. Espera o dia em que as cordas possam se arrebentar e debater dentro da garganta procurando um lugar para descansar. E descansa, então, porque o silêncio da tranqüilidade durará sempre muito pouco...até, mais uma vez, vir a vontade ensurdecedora de gritar. E, mais uma vez, abafarem a sua voz.

15.6.07

Respiração

Um feto no mundo líquido da espera.
Os pulmões se desesperam para se encher de algo que nunca sentiram. Como puderam chegar até ali sem aquilo? Sem esse alento louco que vem com a mais profunda respiração que, curiosa, só quer ingerir toda aquela fumaça de vida em volta. Tudo em volta é fumaça de vida, ar rarefeito que traz um sentimento frio para o interior.

Não é mais do calor que se precisa. É de vida! O que se precisa agora é de uma nova queda na infinidade das sensações finitas e reais. De tão novas e lúdicas, quase obscenas. Lentos, rítmicos, inesperados, profundos respiros de curiosidade e força. É desejo ser preenchido por uma força inebriante, se perder numa loucura deliciosa e viva. Fluxo constante de experiências.

14.6.07

fluido

pensamentos a deriva
livres nos litros
vagos nas ondas
vagas são as horas
espessa é a liquida embalagem
de idéias

pára
respira
vira
volta
respinga

o derivado
encharca do tempo.

primeira canção

"É bonito se ver na beira da praia
A gandaia das ondas que o barco balança
Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros
Como guerreiros na dança
Oooh, quem não viu vá ver
A onda do mar crescer
Oooh, quem não viu vá ver
A onda do mar crescer"

(emprestado de Lenine e Dudu Falcão)