10.5.13

cinzas

estava pinçada entre os dedos ágeis. 
prensada entre o algodão leve e a aspereza da novidade. 
pensada entre a mente sem reação e o coração num trote. 

a boca se arrastava como uma lagarta sobre a folhagem, deixando pequenos traços de brasa pela barriga, pelos braços, pelos flancos. 

icandescendo, o sorriso se iluminou voluptuoso e o corpo se consumiu como lenha. dava pra ouvir o mastigar do carvalho. dentes pelando, que trituravam a casca outrora humida. o calor drenava, como sopro a água que, medrosa, tentou refugiar-se nos meandros do tronco. era toda ela vapor, não havia por onde escapar.

queimou devagar até as cinzas.
macias, como talco.
negras, como a visão que se tem ao fechar os olhos e se entregar ao sono. 

9.5.13

insolencia

um sopro.
seu sorriso largo e cheio de sol. a invasão do seu esconderijo. sua pele torrada, moída e quente. 

os panos, os cheiros, o gosto se levantam para me deixar passar. e, devagarzinho, vou pisando por suas palavras, me convido para o seu mundo. ensolarada e insolente. 

impertinente. 

espesso

angústias e palavras. preso na garganta, o ato escorrega num líquido viscoso, um sebo, um óleo, algo assim, espesso. ele se debate de forma patética. conserva em si a inocência de um passado mais ou menos morto. um passado moribundo, era como se podia nomear. numa angústia desesperadora, noventa soldados desejavam proferir o golpe final e livrá-lo da vida. salvá-lo. o resto queria mantê-lo vivo, na agonia de ser um ser pensante. alguém que pensa e - pior! - sente.