13.9.07

The amazing essence of the small alphabet

... because what separates fright from the fight, is only an r. And he´s just one letter away from beating his shoelaces.


And teaching them a lesson they will never forget.

14.8.07

Notas de mentirinha

[do]ma o controle
[re]ga a dúvida
[mi]nta para a razão
[fa]la-me dos sonhos
[sol]ta-me em sua cabeça
[la] entro calada e
[si]nto que toda noite
não te deixo [do]rmir

Sobre a dançarina no escuro

O mel vermelho
que escorre
de minha boca,
pinga nos joelhos

Beijos em cacos
se a(poça)m do chão

Lentamente,
meu corpo rasga
o escuro do passado,
meus pêlos em alerta

Nua

A cintura ornamentada,
asiático leque,
sanfona uma melodia triste
enquanto danço e fujo
das lâminas e línguas

Pois se é a prata ou a chama
que me cortam
Minha pele, já em bronze,
nada sente

Na música estática
o único fio de dor
desenha-se perante o silêncio
cerrado entre meus dentes

Castanho escuro

De tanto o cansaço
mordiscar meus olhos
minha pupila se reduziu
a pó de café

10.8.07

Fora d´água

Enquanto eu olhava vagarosamente para aquele peixe, notei que seus olhos eram muito maiores do que sua face podia suportar. Eram imensas bolas de vidro (ou de gude, se assim preferem as crianças) olhando perigosamente para os 180 graus que comportavam sua visão. Nadando naquele ângulo raso, ele parecia uma serpentina chorando o fim do carnaval. Sua aparência meio ranzinza me fez me perguntar várias vezes se cinza era sua cor favorita. Ele parecia preso num aquário gigante, chicoteando sua calda pesada como uma secretária nervosa que balança o pé de ansiedade por debaixo da mesa do computador. E também me parecia assustado, como eu. Ele até se parecia comigo, mas meus olhos são menores. E mais bonitos.

Perguntei se ele estava sem ar ou se precisava de alguma coisa ao que ele prontamente respondeu “menina, eu pareço com um peixe que precisa de alguma coisa?”. Não respondi porque, sinceramente, não sabia responder nem sim, nem não. Então resolvi ficar calada, só lhe fazendo compania porque achei que ele precisava. Ainda senti que ele olhou para mim umas duas ou três vezes como que pedindo para eu sair dali, mas eu continuei onde estava, torcendo para que suas escamas mudassem de cor apontando uma mudança em seu estado de espírito. Talvez elas ficassem furta-cor ou mais prateadas, tudo menos aquele cinza acinzentado. Perguntei se ele conhecia aquela “piaba” do português e ele utilizou seu fuzil ocular para me dizer, com todos os seus 180 graus, que não achou a mínima graça. Olhei para o chão me sentindo ridícula e depois de um tempo eu mesma concordei (dentro da minha cabeça) que tinha sido um trocadilho deplorável! No fim da tarde, me levantei silenciosamente e fui caminhando ao longo da margem, tentando dizer “estou indo embora”, enquanto ele parecia não se importar com a solidão que eu estava prestes a lhe devolver. Eu ainda me virei uma última vez e disse em voz alta “volto amanhã”. Ele teria dado de ombros, se tivesse algum. Enquanto caminhava para casa, senti como se alguém jogasse pesadas bolas de gude em minhas costas.

9.7.07

Poemeto daquela época

Num instante
os sentidos se multiplicaram
e de um extremo ao outro
a água se inundou de flores

À Anouk Aimé

Não adianta, nega
não dá pra negar.

Por mais que eu teime,
je t'aime.

5.7.07

Imagem de rua

barulhos brotavam
através do parabrisa
encharcado de água e sabão

sob a passarela do cotidiano
só um vermelho apagado
ousava nadar fora da rotina

as três pernas cadenciadas
em seu próprio compasso
estouravam a velocidade do concreto

e dentro da cabeça rala
só um pensamento
a impulsionar aquele balanço:

pé ante pé

Negro

Na ponta de seus dedos
um tapete negro e opaco
chicoteava furioso
a escancarar os dentes

As espumas salivavam
observando a presa
os olhos negros cheios de sal

Um zunido de ferro picou
todo o seu corpo
frio que lambia até o osso
molhado de mar

Era todo ele um poço de medo
um cais a alagar-se lentamente
na viscosa negritude de piche

De sólido, só solidão

25.6.07

A Roda

Lasciame stare. Pois é aqui que eu quero ficar.

Dos meus sentimentos, o motor suga a energia que faz a roda girar. O fluxo gélido de água constante que movimenta o moinho, abre os ciclos e fecha a ciranda. É aqui que eu quero ficar. Me deixe cochilar nesse balanço, molhar meus pés na água fria. Quero estar no constante, dentro do instante, vendo o entediante passar longe de mim. Entre a diante. Me deixe ficar no movimento, na adrenalina do escuro, na loucura do desconhecido. Deixe a roda girar, deixe o vento bater, me deixe ser. Só por esse instante.

É uma questão de estações. Uma vem carregar as ondas que a outra deixou. Girando o turbilhão, ao sabor dos sabores, boiando no acaso. E é aqui que eu quero ficar.

21.6.07

Mameluco do km 158*

Lobo cor de fumo, em seu peito
quebram-se as gotas de sal
Em suas garras afiadas segura Iansã
vento que guia e desvia a nau

Marujo, capitão, jangadeiro
solto na maré do imprevisto
Senhor, escravo, herdeiro
da paixão pelo ainda não visto

Nós dos dedos sobre a roda de couro
À sua esquerda, a bomba do impulso
Convés benzido contra o negro agouro
À sua direita, o leste do pulso

Bordo que cambaleia o barco
engole as bordas da escuridão
E desenha um interminável arco
sobre o infinito da imensidão

No Atlântico, Índico ou no Negro,
do Pacifico ao Báltico ao Morto
Sorve a água e o sal da Terra
e volta pra nós, que somos teu porto

*(para meu pai)

Àquele amigo...

As notas soltas de uma melodia calada, na eterna busca do som que ecoa dentro e fora do quarto. Hoje, meu amigo, suas palavras querem escorrer até outros ouvidos, mas é melhor calar-se. Cale-se. E espera à escuta do silêncio. Espera o dia em que as cordas possam se arrebentar e debater dentro da garganta procurando um lugar para descansar. E descansa, então, porque o silêncio da tranqüilidade durará sempre muito pouco...até, mais uma vez, vir a vontade ensurdecedora de gritar. E, mais uma vez, abafarem a sua voz.

15.6.07

Respiração

Um feto no mundo líquido da espera.
Os pulmões se desesperam para se encher de algo que nunca sentiram. Como puderam chegar até ali sem aquilo? Sem esse alento louco que vem com a mais profunda respiração que, curiosa, só quer ingerir toda aquela fumaça de vida em volta. Tudo em volta é fumaça de vida, ar rarefeito que traz um sentimento frio para o interior.

Não é mais do calor que se precisa. É de vida! O que se precisa agora é de uma nova queda na infinidade das sensações finitas e reais. De tão novas e lúdicas, quase obscenas. Lentos, rítmicos, inesperados, profundos respiros de curiosidade e força. É desejo ser preenchido por uma força inebriante, se perder numa loucura deliciosa e viva. Fluxo constante de experiências.

14.6.07

fluido

pensamentos a deriva
livres nos litros
vagos nas ondas
vagas são as horas
espessa é a liquida embalagem
de idéias

pára
respira
vira
volta
respinga

o derivado
encharca do tempo.

primeira canção

"É bonito se ver na beira da praia
A gandaia das ondas que o barco balança
Batendo na areia, molhando os cocares dos coqueiros
Como guerreiros na dança
Oooh, quem não viu vá ver
A onda do mar crescer
Oooh, quem não viu vá ver
A onda do mar crescer"

(emprestado de Lenine e Dudu Falcão)