9.7.07

Poemeto daquela época

Num instante
os sentidos se multiplicaram
e de um extremo ao outro
a água se inundou de flores

À Anouk Aimé

Não adianta, nega
não dá pra negar.

Por mais que eu teime,
je t'aime.

5.7.07

Imagem de rua

barulhos brotavam
através do parabrisa
encharcado de água e sabão

sob a passarela do cotidiano
só um vermelho apagado
ousava nadar fora da rotina

as três pernas cadenciadas
em seu próprio compasso
estouravam a velocidade do concreto

e dentro da cabeça rala
só um pensamento
a impulsionar aquele balanço:

pé ante pé

Negro

Na ponta de seus dedos
um tapete negro e opaco
chicoteava furioso
a escancarar os dentes

As espumas salivavam
observando a presa
os olhos negros cheios de sal

Um zunido de ferro picou
todo o seu corpo
frio que lambia até o osso
molhado de mar

Era todo ele um poço de medo
um cais a alagar-se lentamente
na viscosa negritude de piche

De sólido, só solidão