31.7.10

me esparramo sobre suas costas. leve e lenta. respiro sua nuca numa cadência caramujo, me ajustando à curva da sua coluna.

de todos os pequenos delírios que se esgueiram pelas frestas (bem vigiadas) do meu cotidiano, talvez seja esse o que mais me desnorteia.



travessia

respiro forte o vento gelado que me apruma. sigo na direção do sopro. uma nova poesia vem brotando das articulações do meu tempo. pedaços soltos que formam um novo espaço. mais branco, mais lógico. quem sabe? mais limpo. novos tempos líquidos para dias flutuantes. inspiro. os peitos se abrem, como uma vela.

"há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." *

dentro de mim, arrastam-se os móveis. rangem as tábuas. riscam o chão. abrem espaço. você sabe, venta mais numa sala vazia.

"peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." **

há que se ter coragem para desp(ed)ir.

(com a ajuda de fernando pessoa* e guimarães rosa**)

22.7.10

faço
do compasso
um esforço

traço
no osso
um esboço

ouço
no fundo do fosso
um moço

no fundo
do poço,
a bossa


15.7.10

sobre um olho (ou um coração) em processo de cura

"
vai coçar. vai doer.
vai arder. vai melar.
dorme, acorda.
dor.
muita dor.
insuportável.
hospital.
pressão no olho.
toma isso.
aquilo.
dobra a dor.
dobra a dose.
dobra as gotas.
passa a dor.
dorme, acorda
"

poema de joão castilho, parte do trabalho fotográfico-poético série cega