3.10.08

Da série: por que não pensei nisso antes de você?

"Eu sou um verso de Carlos Pena Filho num frevo de Capiba ao som da orquestra armorial
Sou Capibaribe num livro de João Cabral

Sou mamulengo de São Bento do Una
Vindo no baque solto do Maracatu
Eu sou um alto de Ariano Suassuna
No meio da Feira de Ca-ru-aru"

II – Do caminho branco (trecho)

Com ele, eu dançaria num tom meio bobo, quase infantil. Não muito abraçada porque as lições da quarta série me ensinaram bem: se você quiser ser respeitada, por favor, não chegue muito perto deles. Mantenha a distância digna de uns três palmos. Mantive a distância. Eu que não sou boba sei que quando a cerca fica baixa é perigoso alguém pular pra dentro. Até aí, tudo bem. Mas fica foda quando o pulo pra fora leva junto o arame farpado que fica no alto da cerca. Aí, é de um rasgo só. De ponta a ponta. Aí que dói. E quando eu vi, já estava dançando sozinha de novo.

E não. Não vou ficar passando a dança de homem em homem como se eles definissem quem eu sou. Às vezes tenho vontade de dançar sozinha só para quebrar o padrão. Só para me nomear, por fim, a melhor pé de valsa. Só porque eu não queria dar o título para mais ninguém. Assim que pensei nele fiquei instantaneamente com ciúme e decidi que ele só poderia ser meu.

Cansei de dançar.

Fui andando lentamente sentindo a neve fofa e pisei, sem querer, numa outra coisa fofa e branca. Olhei para baixo e vi um coelhinho assustado. Pensei que essa coisa de “Júlia no País das Maravilhas” já estava ficando literal de mais. Mas já que eu estava ali mesmo, fui seguindo o papel. Peguei o coelhinho no colo e ele sujou meu vestido vermelho todo com as patinhas nervosas. Fiquei com vontade de mandar o coelho pra puta que pariu ou entregar ele pra guilhotina da Rainha de Copas. Aí eu ia gritar bem alto Cortem a cabeça!!!. Comecei a rir e o coelho riu junto. Achei engraçadinho. Ele pulou do meu colo e começou a andar rápido em pulinhos, fui atrás – correndo, claro, não pulando! Parei quando chegamos numa porta super alta. Tão, mas tão alta, que não acabava nunca. Olhei um tempo, meio sem jeito, muito intimidada e resolvi abrir de uma vez só. Agradeci a mim mesma por ter chegado até ali e dei um sorrisinho pro coelho como quem meio que agradece também. Fechei os olhos, coloquei a mão na maçaneta e abri a porta.

2.10.08

Lição

Numa cidade grande como essa, com tantas luzes, com tantos faróis, com tanto acidente,
as pessoas quebram os corações umas das outras.

E cada uma conserta o seu como pode.

1.10.08

Dica do dia

"A idéia central de sugestão para este seu momento envolve o conceito de purificação da alma. Existem questões mal resolvidas ou relacionamentos mal concluídos que você precisa “limpar”? Que tal tentar ver as coisas que já lhe aconteceram a partir de um ponto de vista mais amplo, mais espiritual? Nesta específica fase da sua vida, você possui a amplitude de perspectiva suficiente para criar novas morais para as suas histórias."

Obrigado Tarot do Dia, seguirei seus conselhos.
No maior calor do mundo, a única coisa que entra na minha cabeça é água. E um tédio infinito...

4.8.08

Ingenuidade

Conversa num quarto semi-escuro:

- Só mais duas e a gente vai.
- Duas águas ou duas horas?

Silêncio.

30.7.08

I - Do susto (trecho)

Abri os olhos meio assustada. Não sei por que, todo o meu corpo parecia meio anestesiado, menos meus pés que formigavam sem parar. Comecei a caminhar para ver se passava e alguém me chamou:

- Júlia!

Olhei para trás, mas não vi ninguém. “Júlia!”, ouvi de novo.
Quando voltei a olhar para frente, ele estava parado ali. Era um juiz esquisito, meio gordela. Com um sorrisinho, maroto que me deu raiva, me perguntou: “E aí? O que vai ser?”. Dei de ombros. Fiquei com vontade de mandar ele ir se fuder e sair correndo. Mas continuei parada porque eu não sabia para onde ir. Ele continuou me encarando durantes vários minutos e eu fiz o mesmo, até que ele foi sumindo, sumindo, e em seu lugar apareceram várias cabeças gordelas e sorridentes. Fechei os olhos e comecei a tatear no escuro. Minhas mãos não conseguiam encostar em nada, mas meus pés estavam em cima de um assoalho de madeira fria. Senti como se eu estivesse caindo e abri os olhos para não sentir mais. Não adiantou nada. De olhos abertos eu vi que caía sem parar e todas aquelas cabeças olhavam para mim sem saber o que fazer. Ninguém tentou me segurar. Mas eu parei de cair sozinha.