Com ele, eu dançaria num tom meio bobo, quase infantil. Não muito abraçada porque as lições da quarta série me ensinaram bem: se você quiser ser respeitada, por favor, não chegue muito perto deles. Mantenha a distância digna de uns três palmos. Mantive a distância. Eu que não sou boba sei que quando a cerca fica baixa é perigoso alguém pular pra dentro. Até aí, tudo bem. Mas fica foda quando o pulo pra fora leva junto o arame farpado que fica no alto da cerca. Aí, é de um rasgo só. De ponta a ponta. Aí que dói. E quando eu vi, já estava dançando sozinha de novo.
E não. Não vou ficar passando a dança de homem em homem como se eles definissem quem eu sou. Às vezes tenho vontade de dançar sozinha só para quebrar o padrão. Só para me nomear, por fim, a melhor pé de valsa. Só porque eu não queria dar o título para mais ninguém. Assim que pensei nele fiquei instantaneamente com ciúme e decidi que ele só poderia ser meu.
Cansei de dançar.
Fui andando lentamente sentindo a neve fofa e pisei, sem querer, numa outra coisa fofa e branca. Olhei para baixo e vi um coelhinho assustado. Pensei que essa coisa de “Júlia no País das Maravilhas” já estava ficando literal de mais. Mas já que eu estava ali mesmo, fui seguindo o papel. Peguei o coelhinho no colo e ele sujou meu vestido vermelho todo com as patinhas nervosas. Fiquei com vontade de mandar o coelho pra puta que pariu ou entregar ele pra guilhotina da Rainha de Copas. Aí eu ia gritar bem alto Cortem a cabeça!!!. Comecei a rir e o coelho riu junto. Achei engraçadinho. Ele pulou do meu colo e começou a andar rápido em pulinhos, fui atrás – correndo, claro, não pulando! Parei quando chegamos numa porta super alta. Tão, mas tão alta, que não acabava nunca. Olhei um tempo, meio sem jeito, muito intimidada e resolvi abrir de uma vez só. Agradeci a mim mesma por ter chegado até ali e dei um sorrisinho pro coelho como quem meio que agradece também. Fechei os olhos, coloquei a mão na maçaneta e abri a porta.