18.6.10

VI

Ela mapeava os caminhos na retina, com os olhos muito, muito abertos. Prédio. A rua levara todo mundo para o trabalho de manhã e agora a carregava para longe dele. Prédio, casa, prédio. Já sentia a falta apertar bem forte seus ossos, as costelas finas eram como facas, rasgando a pele rosada a cada batida mais forte do coração dele. Poste, casa, casa, prédio. Quis chorar, mas não queria fazer barulho. Escola. Soltou um grunhido insatisfeita. Casa, prédio, casa. E se encolheu no fundinho do banco. Prédio, prédio, poste, telhado de igreja.

17.6.10

V

Enquanto dirigia o carro, olhava de relance para ela, sentada ao seu lado com uma expressão atenta. Um rato gordo atravessou na frente do carro. Sabia que ela odiava ratos, embora achasse os preás muito simpáticos. Viu que seus olhos não paravam de escanear freneticamente as imagens que passavam pela janela. Como numa moviola.

12.6.10

IV

A dobradiça se girou lentamente e ele demorou para entrar. A porta escancarou os olhos dela, secos. Deitada no sofá da varanda, ela se levantou depressa, com medo da raiva que sabia que ele já estava sentindo. Sentiu seu cheiro enquanto cruzava vagarosamente a porta. Cheiro forte, de lençol enrolado de manhã, um cheiro onde ela gostava de se refugiar. O frio eriçou alguns pêlos do seu corpo, que só costumavam se levantar assim sob as mãos enormes dele. Era o dono de todos os seus dias e a separação era um gosto azedo precipitado. Tinha raiva.

III

Ela continuou com os olhos fixos nas dobradiças douradas da porta. Esperando girar. Virou-se para a janela e olhou a rua longa que levava as pessoas para o trabalho, devagar. Lambeu os beiços um pouco eufórica e se espreguiçou, mais para tentar se livrar, por um pequeno momento, da dor que retumbava em suas costelas. Jogou-se no carpete molhado sem ligar para o frio, que lhe congelava pouco a pouco as narinas. Passou a língua perto do nariz, um hábito seu. Encostou o queixo no chão e esperou.

II

Tomou um gole. A gola dele apertava a garganta e anunciava um dia longo, sem fim. Pegou a pasta e foi trabalhar com um gosto de castanha na boca. Havia triturado sua dor com os dentes pouco antes de acordar: gostava dela de verdade, não queria deixá-la. E agora pensava que aquilo tudo era uma grande bobagem. Que não limpasse a água espalhada, então. Mas os cacos finos espalhados pelo tapete não deveriam ficar ali. Em contato com a pele rasgariam as finas impressões digitais dos seu pé. Poderiam cortá-la, machucá-la. Ah... como era difícil cuidar do tempo inteiro de alguém. Olhou mais uma vez para o carpete ensopado e saiu. Esperando se afastar daquela bagunça, esperou pelo elevador. E pensou na falta que ela lhe faria todas as manhãs, enquanto o olhava com aqueles olhos grandes o esperando acordar. O elevador chegou. Acordou. Levantou os olhos de seu futuro vazio sem ela e saiu. Sentiria a falta, mas não dava mais para continuar.

9.6.10

I

Ela percebeu que lutava desesperadamente para acordá-lo. Queria ver os olhos pequenos se abrirem, queria que ele lhe dissesse que não era bem aquilo que quis dizer. Queria que ele voltasse atrás. Voltasse desesperado buscando pelo copo d'água que caía em posição invertida. Agora, voltando calmamente para a borda da mesa, chupando a água que caír(i)a minutos depois. Queria... mas... Essa palavra que insiste em bater. Que grita alto num mundo silencioso, contrasta com a solidão de dentro. Os órgãos espremidos. Comprimidos. Pequenas pílulas vazias. Só as cápsulas.

19.5.10

pós

segundo o cara da minha sala: "toda linha de chegada é um bom ponto de partida"