18.4.11




a água, como uma amante fria, reflete a luz para longe de si, como se quisesse expelir essa paixão luminosa, fugir do calor que os carentes raios teimam em lhe oferecer. rebate furiosa a luminosidade, teimosa em manter seu negrume. toda ela repelente, escorregadia, cria, sem nem perceber, espetáculo de rara beleza. reflete majestosa a mesma luz que insiste em não aceitar e cresce imponente aos olhos de alguns cachorros que passam. engole as cores dos peixes com ânsia, espreme os raios frenéticos, que se retorcem sem muita opção. em sua urgência por manter-se no escuro, pouco percebe que um pouquinho de luz infiltrou-se por suas gotas e lá faz uma festa de sol quente no fundo do laguinho sem fundo...

maré - parte I

dá para sentir o cheiro do sal grosso sob meus pés
enquanto as ondas tocam timidamente meus dedos
até invadirem sem cerimônia minhas canelas
molham a barra do vestido como uma brincadeira
e correm como se tivessem feito algo errado
o vento engole meu cabelo de uma vez
sou toda humidade nessa praia sem rumo, nem fim

14.3.11


coloco a torrada na torradeira e espero ela cuspi-la pronta. sai crua. enfio a torrada de novo. sai queimada.

timing é tudo.


13.9.10

O caminho do aeroporto é o caminho natural das coisas. Trajeto. Pouco mais de cinqüenta minutos separam o corpo da liberdade inigualável de sentar numa poltrona de avião. E sentir o mundo girar, girar junto com ele. Rodo um mapa mundi e deixo o giro levar meu dedo a um destino qualquer. Espremida numa poltrona de avião, giro meu dedo em círculos pela janela que não abre e espero o pouso me levar aonde eu nem sei se quero ir. Só vou. Hoje eu só fui, e voltei. Me despedi e fiquei. Mas logo, logo, eu quero ir. E, sabe-se lá, não voltar mais.


Com tanta coisa por aí, com tanto lugar, tanta calçada, tanta asa, tanta bebida, tanto medo, tantos frames, tantas fotos, tantos interurbanos, tantos abraços e corações em cacos, tantos reencontros, tanta música, tantos pulsos, tantos tchaus, tantas notas, tanto suor, tanta vida... Como é que alguém agüenta girar só em volta do próprio umbigo meu deus?

7.8.10

being sick is so incredibly boring...

31.7.10

me esparramo sobre suas costas. leve e lenta. respiro sua nuca numa cadência caramujo, me ajustando à curva da sua coluna.

de todos os pequenos delírios que se esgueiram pelas frestas (bem vigiadas) do meu cotidiano, talvez seja esse o que mais me desnorteia.



travessia

respiro forte o vento gelado que me apruma. sigo na direção do sopro. uma nova poesia vem brotando das articulações do meu tempo. pedaços soltos que formam um novo espaço. mais branco, mais lógico. quem sabe? mais limpo. novos tempos líquidos para dias flutuantes. inspiro. os peitos se abrem, como uma vela.

"há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." *

dentro de mim, arrastam-se os móveis. rangem as tábuas. riscam o chão. abrem espaço. você sabe, venta mais numa sala vazia.

"peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." **

há que se ter coragem para desp(ed)ir.

(com a ajuda de fernando pessoa* e guimarães rosa**)