25.4.11

desancorar


me pego pensando sobre a desancoragem das coisas.

o trocadilho não é sutil: há que se ter coragem (e pulso) para desancorar. o problema é que pesa demais! então, você tem que empurrar o corpo para trás, no contrapeso, e puxar com mais vontade do que dá na hora. na hora, acho que a força vem. 

20.4.11

milhares de estilhaços pequenos espalharam-se pelo chão de azulejos quadrados quando o copo caiu. levou um dos caquinhos à boca e mastigou devagar. 

tinha o gosto muito amargo, mesmo querendo que fosse doce.

19.4.11

maré - parte II

epilépticas, as ondas se agitam, dobram-se sobre si num acesso de fúria. o mar se retorce num soluço convulsivo.


grãos de sal escorrem dos olhos, riscam o rosto, traçam na pele avermelhada desenhos brancos. ao som dos espasmos, o corpo move-se como um suspiro na direção da água fria e mergulha sem fazer barulho. ali, na garganta das ondas, relembra uma familiar e estranha sensação de alívio. feliz na imensidão que lhe cortava o peito, mas também pontilhava pequenas penas em suas costas. 

não se espantou quando percebeu minúsculas escamas brilhantes entre as asas encharcadas e, sorrindo, percebeu que nunca mais voltaria a se parecer como antes. "para quê asas, quando se pode boiar?", pensou com satisfação.

18.4.11




a água, como uma amante fria, reflete a luz para longe de si, como se quisesse expelir essa paixão luminosa, fugir do calor que os carentes raios teimam em lhe oferecer. rebate furiosa a luminosidade, teimosa em manter seu negrume. toda ela repelente, escorregadia, cria, sem nem perceber, espetáculo de rara beleza. reflete majestosa a mesma luz que insiste em não aceitar e cresce imponente aos olhos de alguns cachorros que passam. engole as cores dos peixes com ânsia, espreme os raios frenéticos, que se retorcem sem muita opção. em sua urgência por manter-se no escuro, pouco percebe que um pouquinho de luz infiltrou-se por suas gotas e lá faz uma festa de sol quente no fundo do laguinho sem fundo...

maré - parte I

dá para sentir o cheiro do sal grosso sob meus pés
enquanto as ondas tocam timidamente meus dedos
até invadirem sem cerimônia minhas canelas
molham a barra do vestido como uma brincadeira
e correm como se tivessem feito algo errado
o vento engole meu cabelo de uma vez
sou toda humidade nessa praia sem rumo, nem fim

14.3.11


coloco a torrada na torradeira e espero ela cuspi-la pronta. sai crua. enfio a torrada de novo. sai queimada.

timing é tudo.


13.9.10

O caminho do aeroporto é o caminho natural das coisas. Trajeto. Pouco mais de cinqüenta minutos separam o corpo da liberdade inigualável de sentar numa poltrona de avião. E sentir o mundo girar, girar junto com ele. Rodo um mapa mundi e deixo o giro levar meu dedo a um destino qualquer. Espremida numa poltrona de avião, giro meu dedo em círculos pela janela que não abre e espero o pouso me levar aonde eu nem sei se quero ir. Só vou. Hoje eu só fui, e voltei. Me despedi e fiquei. Mas logo, logo, eu quero ir. E, sabe-se lá, não voltar mais.


Com tanta coisa por aí, com tanto lugar, tanta calçada, tanta asa, tanta bebida, tanto medo, tantos frames, tantas fotos, tantos interurbanos, tantos abraços e corações em cacos, tantos reencontros, tanta música, tantos pulsos, tantos tchaus, tantas notas, tanto suor, tanta vida... Como é que alguém agüenta girar só em volta do próprio umbigo meu deus?