angústias e palavras. preso na garganta, o ato escorrega num líquido viscoso, um sebo, um óleo, algo assim, espesso. ele se debate de forma patética. conserva em si a inocência de um passado mais ou menos morto. um passado moribundo, era como se podia nomear. numa angústia desesperadora, noventa soldados desejavam proferir o golpe final e livrá-lo da vida. salvá-lo. o resto queria mantê-lo vivo, na agonia de ser um ser pensante. alguém que pensa e - pior! - sente.
"eu sou aquele navio no mar, sem rumo e sem dono. tenho a miragem do porto pra reconfortar meu sono. e flutuar sobre as águas da maré do abandono"
9.5.13
1.5.11
25.4.11
desancorar
me pego pensando sobre a desancoragem das coisas.
o trocadilho não é sutil: há que se ter coragem (e pulso) para desancorar. o problema é que pesa demais! então, você tem que empurrar o corpo para trás, no contrapeso, e puxar com mais vontade do que dá na hora. na hora, acho que a força vem.
20.4.11
19.4.11
maré - parte II
epilépticas, as ondas se agitam, dobram-se sobre si num acesso de fúria. o mar se retorce num soluço convulsivo.
grãos de sal escorrem dos olhos, riscam o rosto, traçam na pele avermelhada desenhos brancos. ao som dos espasmos, o corpo move-se como um suspiro na direção da água fria e mergulha sem fazer barulho. ali, na garganta das ondas, relembra uma familiar e estranha sensação de alívio. feliz na imensidão que lhe cortava o peito, mas também pontilhava pequenas penas em suas costas.
não se espantou quando percebeu minúsculas escamas brilhantes entre as asas encharcadas e, sorrindo, percebeu que nunca mais voltaria a se parecer como antes. "para quê asas, quando se pode boiar?", pensou com satisfação.
18.4.11
a água, como uma amante fria, reflete a luz para longe de si, como se quisesse expelir essa paixão luminosa, fugir do calor que os carentes raios teimam em lhe oferecer. rebate furiosa a luminosidade, teimosa em manter seu negrume. toda ela repelente, escorregadia, cria, sem nem perceber, espetáculo de rara beleza. reflete majestosa a mesma luz que insiste em não aceitar e cresce imponente aos olhos de alguns cachorros que passam. engole as cores dos peixes com ânsia, espreme os raios frenéticos, que se retorcem sem muita opção. em sua urgência por manter-se no escuro, pouco percebe que um pouquinho de luz infiltrou-se por suas gotas e lá faz uma festa de sol quente no fundo do laguinho sem fundo...
maré - parte I
dá para sentir o cheiro do sal grosso sob meus pés
enquanto as ondas tocam timidamente meus dedos
até invadirem sem cerimônia minhas canelas
molham a barra do vestido como uma brincadeira
e correm como se tivessem feito algo errado
o vento engole meu cabelo de uma vez
sou toda humidade nessa praia sem rumo, nem fim
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