queimou devagar até as cinzas.
macias, como talco.
negras, como a visão que se tem ao fechar os olhos e se entregar ao sono.
"eu sou aquele navio no mar, sem rumo e sem dono. tenho a miragem do porto pra reconfortar meu sono. e flutuar sobre as águas da maré do abandono"
O caminho do aeroporto é o caminho natural das coisas. Trajeto. Pouco mais de cinqüenta minutos separam o corpo da liberdade inigualável de sentar numa poltrona de avião. E sentir o mundo girar, girar junto com ele. Rodo um mapa mundi e deixo o giro levar meu dedo a um destino qualquer. Espremida numa poltrona de avião, giro meu dedo em círculos pela janela que não abre e espero o pouso me levar aonde eu nem sei se quero ir. Só vou. Hoje eu só fui, e voltei. Me despedi e fiquei. Mas logo, logo, eu quero ir. E, sabe-se lá, não voltar mais.
Com tanta coisa por aí, com tanto lugar, tanta calçada, tanta asa, tanta bebida, tanto medo, tantos frames, tantas fotos, tantos interurbanos, tantos abraços e corações em cacos, tantos reencontros, tanta música, tantos pulsos, tantos tchaus, tantas notas, tanto suor, tanta vida... Como é que alguém agüenta girar só em volta do próprio umbigo meu deus?
Ela mapeava os caminhos na retina, com os olhos muito, muito abertos. Prédio. A rua levara todo mundo para o trabalho de manhã e agora a carregava para longe dele. Prédio, casa, prédio. Já sentia a falta apertar bem forte seus ossos, as costelas finas eram como facas, rasgando a pele rosada a cada batida mais forte do coração dele. Poste, casa, casa, prédio. Quis chorar, mas não queria fazer barulho. Escola. Soltou um grunhido insatisfeita. Casa, prédio, casa. E se encolheu no fundinho do banco. Prédio, prédio, poste, telhado de igreja.