10.5.13

cinzas

estava pinçada entre os dedos ágeis. 
prensada entre o algodão leve e a aspereza da novidade. 
pensada entre a mente sem reação e o coração num trote. 

a boca se arrastava como uma lagarta sobre a folhagem, deixando pequenos traços de brasa pela barriga, pelos braços, pelos flancos. 

icandescendo, o sorriso se iluminou voluptuoso e o corpo se consumiu como lenha. dava pra ouvir o mastigar do carvalho. dentes pelando, que trituravam a casca outrora humida. o calor drenava, como sopro a água que, medrosa, tentou refugiar-se nos meandros do tronco. era toda ela vapor, não havia por onde escapar.

queimou devagar até as cinzas.
macias, como talco.
negras, como a visão que se tem ao fechar os olhos e se entregar ao sono. 

9.5.13

insolencia

um sopro.
seu sorriso largo e cheio de sol. a invasão do seu esconderijo. sua pele torrada, moída e quente. 

os panos, os cheiros, o gosto se levantam para me deixar passar. e, devagarzinho, vou pisando por suas palavras, me convido para o seu mundo. ensolarada e insolente. 

impertinente. 

espesso

angústias e palavras. preso na garganta, o ato escorrega num líquido viscoso, um sebo, um óleo, algo assim, espesso. ele se debate de forma patética. conserva em si a inocência de um passado mais ou menos morto. um passado moribundo, era como se podia nomear. numa angústia desesperadora, noventa soldados desejavam proferir o golpe final e livrá-lo da vida. salvá-lo. o resto queria mantê-lo vivo, na agonia de ser um ser pensante. alguém que pensa e - pior! - sente.

1.5.11

drowning



 














the love works in misterious ways

25.4.11

desancorar


me pego pensando sobre a desancoragem das coisas.

o trocadilho não é sutil: há que se ter coragem (e pulso) para desancorar. o problema é que pesa demais! então, você tem que empurrar o corpo para trás, no contrapeso, e puxar com mais vontade do que dá na hora. na hora, acho que a força vem. 

20.4.11

milhares de estilhaços pequenos espalharam-se pelo chão de azulejos quadrados quando o copo caiu. levou um dos caquinhos à boca e mastigou devagar. 

tinha o gosto muito amargo, mesmo querendo que fosse doce.

19.4.11

maré - parte II

epilépticas, as ondas se agitam, dobram-se sobre si num acesso de fúria. o mar se retorce num soluço convulsivo.


grãos de sal escorrem dos olhos, riscam o rosto, traçam na pele avermelhada desenhos brancos. ao som dos espasmos, o corpo move-se como um suspiro na direção da água fria e mergulha sem fazer barulho. ali, na garganta das ondas, relembra uma familiar e estranha sensação de alívio. feliz na imensidão que lhe cortava o peito, mas também pontilhava pequenas penas em suas costas. 

não se espantou quando percebeu minúsculas escamas brilhantes entre as asas encharcadas e, sorrindo, percebeu que nunca mais voltaria a se parecer como antes. "para quê asas, quando se pode boiar?", pensou com satisfação.

18.4.11




a água, como uma amante fria, reflete a luz para longe de si, como se quisesse expelir essa paixão luminosa, fugir do calor que os carentes raios teimam em lhe oferecer. rebate furiosa a luminosidade, teimosa em manter seu negrume. toda ela repelente, escorregadia, cria, sem nem perceber, espetáculo de rara beleza. reflete majestosa a mesma luz que insiste em não aceitar e cresce imponente aos olhos de alguns cachorros que passam. engole as cores dos peixes com ânsia, espreme os raios frenéticos, que se retorcem sem muita opção. em sua urgência por manter-se no escuro, pouco percebe que um pouquinho de luz infiltrou-se por suas gotas e lá faz uma festa de sol quente no fundo do laguinho sem fundo...

maré - parte I

dá para sentir o cheiro do sal grosso sob meus pés
enquanto as ondas tocam timidamente meus dedos
até invadirem sem cerimônia minhas canelas
molham a barra do vestido como uma brincadeira
e correm como se tivessem feito algo errado
o vento engole meu cabelo de uma vez
sou toda humidade nessa praia sem rumo, nem fim

14.3.11


coloco a torrada na torradeira e espero ela cuspi-la pronta. sai crua. enfio a torrada de novo. sai queimada.

timing é tudo.


13.9.10

O caminho do aeroporto é o caminho natural das coisas. Trajeto. Pouco mais de cinqüenta minutos separam o corpo da liberdade inigualável de sentar numa poltrona de avião. E sentir o mundo girar, girar junto com ele. Rodo um mapa mundi e deixo o giro levar meu dedo a um destino qualquer. Espremida numa poltrona de avião, giro meu dedo em círculos pela janela que não abre e espero o pouso me levar aonde eu nem sei se quero ir. Só vou. Hoje eu só fui, e voltei. Me despedi e fiquei. Mas logo, logo, eu quero ir. E, sabe-se lá, não voltar mais.


Com tanta coisa por aí, com tanto lugar, tanta calçada, tanta asa, tanta bebida, tanto medo, tantos frames, tantas fotos, tantos interurbanos, tantos abraços e corações em cacos, tantos reencontros, tanta música, tantos pulsos, tantos tchaus, tantas notas, tanto suor, tanta vida... Como é que alguém agüenta girar só em volta do próprio umbigo meu deus?

7.8.10

being sick is so incredibly boring...

31.7.10

me esparramo sobre suas costas. leve e lenta. respiro sua nuca numa cadência caramujo, me ajustando à curva da sua coluna.

de todos os pequenos delírios que se esgueiram pelas frestas (bem vigiadas) do meu cotidiano, talvez seja esse o que mais me desnorteia.



travessia

respiro forte o vento gelado que me apruma. sigo na direção do sopro. uma nova poesia vem brotando das articulações do meu tempo. pedaços soltos que formam um novo espaço. mais branco, mais lógico. quem sabe? mais limpo. novos tempos líquidos para dias flutuantes. inspiro. os peitos se abrem, como uma vela.

"há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." *

dentro de mim, arrastam-se os móveis. rangem as tábuas. riscam o chão. abrem espaço. você sabe, venta mais numa sala vazia.

"peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." **

há que se ter coragem para desp(ed)ir.

(com a ajuda de fernando pessoa* e guimarães rosa**)

22.7.10

faço
do compasso
um esforço

traço
no osso
um esboço

ouço
no fundo do fosso
um moço

no fundo
do poço,
a bossa


15.7.10

sobre um olho (ou um coração) em processo de cura

"
vai coçar. vai doer.
vai arder. vai melar.
dorme, acorda.
dor.
muita dor.
insuportável.
hospital.
pressão no olho.
toma isso.
aquilo.
dobra a dor.
dobra a dose.
dobra as gotas.
passa a dor.
dorme, acorda
"

poema de joão castilho, parte do trabalho fotográfico-poético série cega

30.6.10

desejo permanecer dentro dessa alegria amarela.

quieta.

engolida por um silêncio preguiçoso, uma tarde morna inteira, com raios grossos de sol que aquecem os pés e são generosos com os pensamentos. perdida no interior do quarto vermelho, me solto pelas sensações primeiras e espero não passar à secundidade das coisas. se pudessem, todos os meus dias se sentariam ali, à beira de suas palavras.

24.6.10

devagar. as tramas de uma rede alva se tingem aos poucos. engolidas por um nanquim cheio de sede, sorvidas lentamente pelo negrume de uma escrita sem rumo, quase louca. poucas coisas doem tanto quanto se engasgar nas palavras, procurá-las em vão, rodar as letras embaralhadas entre as linhas da mão. vida escrita.

força vertical que empurra a fina linha preta que escorre, com pouco cuidado, ao lado dos lábios. é como beber sem querer o encerramento. a tinta absorve a celulose. parada, um domínio ralo. sem reação contra a força intransigente, teimosa, insolente, desvairada. ponto a ponto, o círculo de pigmento engole as fibras. do papel se faz um ponto. final.

"It ain’t no use to sit and wonder why, babe
It don’t matter, anyhow
An’ it ain’t no use to sit and wonder why, babe
If you don’t know by now
When your rooster crows at the break of dawn
Look out your window and I’ll be gone
You’re the reason I’m trav’lin’ on
Don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in turnin’ on your light, babe
That light I never knowed
An’ it ain’t no use in turnin’ on your light, babe
I’m on the dark side of the road
Still I wish there was somethin’ you would do or say
To try and make me change my mind and stay
We never did too much talkin’ anyway
So don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in callin’ out my name, gal
Like you never did before
It ain’t no use in callin’ out my name, gal
I can’t hear you anymore
I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ all the way down the road
I once loved a woman, a child I’m told
I give her my heart but she wanted my soul
But don’t think twice, it’s all right

I’m walkin’ down that long, lonesome road, babe
Where I’m bound, I can’t tell
But goodbye’s too good a word, gal
So I’ll just say fare thee well
I ain’t sayin’ you treated me unkind
You could have done better but I don’t mind
You just kinda wasted my precious time
But don’t think twice, it’s all right"

o calígrafo olha para a vitrola que gira ao seu lado. desvairada também. e canta baixinho, quase sem som, para dentro de si mesmo.

23.6.10

VII

Se o visse na rua depois de tudo acabar, sentiria o cheiro como antes? O reconheceria pelas narinas quando as rugas cobrissem todo o seu rosto e escondessem aquele sorriso que espalhava flor pela casa inteira? O encontraria de alguma forma. Cheirando o ar poluído de uma cidade sem luz. Virando as esquinas, pisoteando as folhas duras e frágeis no asfalto irregular, arrastaria suas garras pelo concreto sem fim, em busca dele. Em busca daquele amor que a tomava como um sopro, mordia cada uma de suas pernas, fazia um carinho fino atrás de suas orelhas. Pertencia a ele. Ela o encontraria de um jeito ou de outro. Num lugar calmo, cheio de grama. Rolaria com ele pelo chão, comeria aquela ração nova, guardada no alto do armário. E tudo seria diferente.

18.6.10

VI

Ela mapeava os caminhos na retina, com os olhos muito, muito abertos. Prédio. A rua levara todo mundo para o trabalho de manhã e agora a carregava para longe dele. Prédio, casa, prédio. Já sentia a falta apertar bem forte seus ossos, as costelas finas eram como facas, rasgando a pele rosada a cada batida mais forte do coração dele. Poste, casa, casa, prédio. Quis chorar, mas não queria fazer barulho. Escola. Soltou um grunhido insatisfeita. Casa, prédio, casa. E se encolheu no fundinho do banco. Prédio, prédio, poste, telhado de igreja.