14.3.11


coloco a torrada na torradeira e espero ela cuspi-la pronta. sai crua. enfio a torrada de novo. sai queimada.

timing é tudo.


13.9.10

O caminho do aeroporto é o caminho natural das coisas. Trajeto. Pouco mais de cinqüenta minutos separam o corpo da liberdade inigualável de sentar numa poltrona de avião. E sentir o mundo girar, girar junto com ele. Rodo um mapa mundi e deixo o giro levar meu dedo a um destino qualquer. Espremida numa poltrona de avião, giro meu dedo em círculos pela janela que não abre e espero o pouso me levar aonde eu nem sei se quero ir. Só vou. Hoje eu só fui, e voltei. Me despedi e fiquei. Mas logo, logo, eu quero ir. E, sabe-se lá, não voltar mais.


Com tanta coisa por aí, com tanto lugar, tanta calçada, tanta asa, tanta bebida, tanto medo, tantos frames, tantas fotos, tantos interurbanos, tantos abraços e corações em cacos, tantos reencontros, tanta música, tantos pulsos, tantos tchaus, tantas notas, tanto suor, tanta vida... Como é que alguém agüenta girar só em volta do próprio umbigo meu deus?

7.8.10

being sick is so incredibly boring...

31.7.10

me esparramo sobre suas costas. leve e lenta. respiro sua nuca numa cadência caramujo, me ajustando à curva da sua coluna.

de todos os pequenos delírios que se esgueiram pelas frestas (bem vigiadas) do meu cotidiano, talvez seja esse o que mais me desnorteia.



travessia

respiro forte o vento gelado que me apruma. sigo na direção do sopro. uma nova poesia vem brotando das articulações do meu tempo. pedaços soltos que formam um novo espaço. mais branco, mais lógico. quem sabe? mais limpo. novos tempos líquidos para dias flutuantes. inspiro. os peitos se abrem, como uma vela.

"há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. é o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." *

dentro de mim, arrastam-se os móveis. rangem as tábuas. riscam o chão. abrem espaço. você sabe, venta mais numa sala vazia.

"peguem em mim e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro - o rio." **

há que se ter coragem para desp(ed)ir.

(com a ajuda de fernando pessoa* e guimarães rosa**)

22.7.10

faço
do compasso
um esforço

traço
no osso
um esboço

ouço
no fundo do fosso
um moço

no fundo
do poço,
a bossa


15.7.10

sobre um olho (ou um coração) em processo de cura

"
vai coçar. vai doer.
vai arder. vai melar.
dorme, acorda.
dor.
muita dor.
insuportável.
hospital.
pressão no olho.
toma isso.
aquilo.
dobra a dor.
dobra a dose.
dobra as gotas.
passa a dor.
dorme, acorda
"

poema de joão castilho, parte do trabalho fotográfico-poético série cega