9.7.07

Poemeto daquela época

Num instante
os sentidos se multiplicaram
e de um extremo ao outro
a água se inundou de flores

À Anouk Aimé

Não adianta, nega
não dá pra negar.

Por mais que eu teime,
je t'aime.

5.7.07

Imagem de rua

barulhos brotavam
através do parabrisa
encharcado de água e sabão

sob a passarela do cotidiano
só um vermelho apagado
ousava nadar fora da rotina

as três pernas cadenciadas
em seu próprio compasso
estouravam a velocidade do concreto

e dentro da cabeça rala
só um pensamento
a impulsionar aquele balanço:

pé ante pé

Negro

Na ponta de seus dedos
um tapete negro e opaco
chicoteava furioso
a escancarar os dentes

As espumas salivavam
observando a presa
os olhos negros cheios de sal

Um zunido de ferro picou
todo o seu corpo
frio que lambia até o osso
molhado de mar

Era todo ele um poço de medo
um cais a alagar-se lentamente
na viscosa negritude de piche

De sólido, só solidão

25.6.07

A Roda

Lasciame stare. Pois é aqui que eu quero ficar.

Dos meus sentimentos, o motor suga a energia que faz a roda girar. O fluxo gélido de água constante que movimenta o moinho, abre os ciclos e fecha a ciranda. É aqui que eu quero ficar. Me deixe cochilar nesse balanço, molhar meus pés na água fria. Quero estar no constante, dentro do instante, vendo o entediante passar longe de mim. Entre a diante. Me deixe ficar no movimento, na adrenalina do escuro, na loucura do desconhecido. Deixe a roda girar, deixe o vento bater, me deixe ser. Só por esse instante.

É uma questão de estações. Uma vem carregar as ondas que a outra deixou. Girando o turbilhão, ao sabor dos sabores, boiando no acaso. E é aqui que eu quero ficar.

21.6.07

Mameluco do km 158*

Lobo cor de fumo, em seu peito
quebram-se as gotas de sal
Em suas garras afiadas segura Iansã
vento que guia e desvia a nau

Marujo, capitão, jangadeiro
solto na maré do imprevisto
Senhor, escravo, herdeiro
da paixão pelo ainda não visto

Nós dos dedos sobre a roda de couro
À sua esquerda, a bomba do impulso
Convés benzido contra o negro agouro
À sua direita, o leste do pulso

Bordo que cambaleia o barco
engole as bordas da escuridão
E desenha um interminável arco
sobre o infinito da imensidão

No Atlântico, Índico ou no Negro,
do Pacifico ao Báltico ao Morto
Sorve a água e o sal da Terra
e volta pra nós, que somos teu porto

*(para meu pai)

Àquele amigo...

As notas soltas de uma melodia calada, na eterna busca do som que ecoa dentro e fora do quarto. Hoje, meu amigo, suas palavras querem escorrer até outros ouvidos, mas é melhor calar-se. Cale-se. E espera à escuta do silêncio. Espera o dia em que as cordas possam se arrebentar e debater dentro da garganta procurando um lugar para descansar. E descansa, então, porque o silêncio da tranqüilidade durará sempre muito pouco...até, mais uma vez, vir a vontade ensurdecedora de gritar. E, mais uma vez, abafarem a sua voz.