14.8.07

Sobre a dançarina no escuro

O mel vermelho
que escorre
de minha boca,
pinga nos joelhos

Beijos em cacos
se a(poça)m do chão

Lentamente,
meu corpo rasga
o escuro do passado,
meus pêlos em alerta

Nua

A cintura ornamentada,
asiático leque,
sanfona uma melodia triste
enquanto danço e fujo
das lâminas e línguas

Pois se é a prata ou a chama
que me cortam
Minha pele, já em bronze,
nada sente

Na música estática
o único fio de dor
desenha-se perante o silêncio
cerrado entre meus dentes

Castanho escuro

De tanto o cansaço
mordiscar meus olhos
minha pupila se reduziu
a pó de café

10.8.07

Fora d´água

Enquanto eu olhava vagarosamente para aquele peixe, notei que seus olhos eram muito maiores do que sua face podia suportar. Eram imensas bolas de vidro (ou de gude, se assim preferem as crianças) olhando perigosamente para os 180 graus que comportavam sua visão. Nadando naquele ângulo raso, ele parecia uma serpentina chorando o fim do carnaval. Sua aparência meio ranzinza me fez me perguntar várias vezes se cinza era sua cor favorita. Ele parecia preso num aquário gigante, chicoteando sua calda pesada como uma secretária nervosa que balança o pé de ansiedade por debaixo da mesa do computador. E também me parecia assustado, como eu. Ele até se parecia comigo, mas meus olhos são menores. E mais bonitos.

Perguntei se ele estava sem ar ou se precisava de alguma coisa ao que ele prontamente respondeu “menina, eu pareço com um peixe que precisa de alguma coisa?”. Não respondi porque, sinceramente, não sabia responder nem sim, nem não. Então resolvi ficar calada, só lhe fazendo compania porque achei que ele precisava. Ainda senti que ele olhou para mim umas duas ou três vezes como que pedindo para eu sair dali, mas eu continuei onde estava, torcendo para que suas escamas mudassem de cor apontando uma mudança em seu estado de espírito. Talvez elas ficassem furta-cor ou mais prateadas, tudo menos aquele cinza acinzentado. Perguntei se ele conhecia aquela “piaba” do português e ele utilizou seu fuzil ocular para me dizer, com todos os seus 180 graus, que não achou a mínima graça. Olhei para o chão me sentindo ridícula e depois de um tempo eu mesma concordei (dentro da minha cabeça) que tinha sido um trocadilho deplorável! No fim da tarde, me levantei silenciosamente e fui caminhando ao longo da margem, tentando dizer “estou indo embora”, enquanto ele parecia não se importar com a solidão que eu estava prestes a lhe devolver. Eu ainda me virei uma última vez e disse em voz alta “volto amanhã”. Ele teria dado de ombros, se tivesse algum. Enquanto caminhava para casa, senti como se alguém jogasse pesadas bolas de gude em minhas costas.

9.7.07

Poemeto daquela época

Num instante
os sentidos se multiplicaram
e de um extremo ao outro
a água se inundou de flores

À Anouk Aimé

Não adianta, nega
não dá pra negar.

Por mais que eu teime,
je t'aime.

5.7.07

Imagem de rua

barulhos brotavam
através do parabrisa
encharcado de água e sabão

sob a passarela do cotidiano
só um vermelho apagado
ousava nadar fora da rotina

as três pernas cadenciadas
em seu próprio compasso
estouravam a velocidade do concreto

e dentro da cabeça rala
só um pensamento
a impulsionar aquele balanço:

pé ante pé

Negro

Na ponta de seus dedos
um tapete negro e opaco
chicoteava furioso
a escancarar os dentes

As espumas salivavam
observando a presa
os olhos negros cheios de sal

Um zunido de ferro picou
todo o seu corpo
frio que lambia até o osso
molhado de mar

Era todo ele um poço de medo
um cais a alagar-se lentamente
na viscosa negritude de piche

De sólido, só solidão